musica

12 de mar de 2012

Mulher




 




Anônimos

Giordana Medeiros

Em uma rua qualquer, em alguma cidade (que bem pudera ser nenhuma), nesse lugar em que também estou, a vida pulsa. Homens e mulheres seguem suas vidas sem futuro e crianças brincam imaginando que viver é simples (pobrezinhas…). Mas, nem esses nem aqueles têm certeza de que há um porvir. Somente vivem. Correndo atrás de uma bola, os meninos querem se tornar jogadores de futebol, as meninas, por sua vez, sonham com a vida de modelo, foi-se há muito a época em que as mocinhas desejavam a vida de normalista, veterinária ou médica. Hoje o mais rentável é entregar-se à sociedade de consumo. Desvalorizam-se as profissões, despreza-se o trabalhador, nesse admirável mundo novo em que todos usam vendas para não enxergar a verdadeira ordem das coisas. E essa se mostra gritante aos olhos. Cintila como um luminoso de neon, mas a humanidade cega-se, para justificar o desprezo à educação. É uma cegueira que se difunde sobre o mundo como imaginou Saramago no seu famoso Ensaio. Pessoas anônimas que vivem. Estranho imaginar que externo ao que somos a vida também existe. Como conceber que há vidas estranhas a nós? Corações que batem solitários, ali no cachorro que remexe os dejetos da lixeira, naquele menino que empina uma pipa, no homem que acende um cigarro, na mulher que derruba um saco de compras no chão de onde fogem duas laranjas que rolam no asfalto entre os carros. Há tanto para se ver nesse mundo, que mesmo pequeno, para as pernas curtas de um homem e seus horizontes diminutos, não será totalmente percorrido numa única vida. Temos 80 anos e não 80 dias para percorrer todo um planeta. Mas a volta ao mundo não pode ser completada em sua totalidade nessa vida, que mesmo longa é diminuta. Somos um ínfimo segundo na existência do universo. Esse homem que percorre a calçada com um saco de pães frescos na mão provavelmente será esquecido pelo mundo. A humanidade reconhece a perpetuidade histórica para poucos. Os demais somos todos fadados ao esquecimento. Minha memória também não é muito boa. Despreza acontecimentos importantes, e coisas das quais precisava recordar-me acabam se apagando sem que possa por em prática. Muitas histórias se perderam no travesseiro, planos que se esvaem em sonhos, talvez algum dia retornem. Espero que sim. Mas só espero. Não posso fazer nada mais que aguardar. Nossa mente é estranha, não tem lógica como os computadores, e mesmo esses são imprevisíveis. Quem nunca perdeu algo muito importante devido a falhas no programa dessas máquinas incríveis? Vou me perdendo no hábito. Minha imaginação que foi feita para muito mais que o limitado cotidiano oferece, se cerceia a alguns lampejos de idéias que morrem na impossibilidade de concretização. E nesse mundo de pessoas sem identidade, onde nada é mais como era antigamente, aventuro-me a ser. Vou existindo, mesmo que não me vejam. Sou um ser, mesmo que ser seja uma idéia diferente de existir. Ser, é possuir, e não tenho nada. Somente aconteço. E ninguém se dá conta disso. Talvez porque não sejam também. Nós acontecemos. Existimos tão somente. Assim nesse mundo quieto cheio de hábitos, no silêncio e monotonia desse crepúsculo, dá vontade de fazer alguma coisa, qualquer coisa, mesmo que não tenha nenhuma importância. Assoviar, muito embora não se saiba o ritmo daquela canção (que canção mesmo?),ou ligar o rádio, ou, até, abrir o vidro do quarto, mas não faço nada. Fico parada, na janela, observando a vida passar. Olhando para fora e enxergando para dentro. Tudo existindo discretamente, exceto a lua, que vai surgindo resplandecente no céu. As crianças saem das ruas, atendendo aos berros de suas mães que determinam que se lavem para o jantar. E ficam tão somente os jovens enamorados, em suas conversas cheias de suspiros nos portões das casas. Estou um tanto triste. De vez em quando a gente fica triste sem saber porque, tristeza sem motivo, que chega sorrateira e, de repente, toma conta de todo o seu ser.

É o gelo que tenho por dentro que não consigo entender. Estou tão sóbria que me considero um tanto amarga, irônica por que não? Acho que nunca provei da felicidade, esta embriaga, engana os sentidos. Estou muito seca nessa noite cheia de ilusões. Vou escrevendo sob um manto de estrelas e, pela janela do quarto, o silêncio chega até mim. Vou sorvendo goles de realidade, misturados com doses de desespero. E lá fora há o mundo. Fora dessas paredes brancas, dessa prisão de concreto, desse quarto em penumbra, há toda a liberdade da qual me desprovi voluntariamente. Há um mundo de pessoas anônimas, gente sem importância, tantas vidas que não me interessam por completo. Tanto quanto não interesso a elas. Vamos nos perdendo na nossa individualidade mesquinha, no egoísmo de nossas vidas diminutas. Eu nesse recinto em que um quadro na parede tenta me lembrar que imaginação é mais importante que conhecimento. Mas me fogem idéias para escrever. Somente acompanho o início dessa noite de solidões. Todos sozinhos, eu e o resto da sociedade. Mundo de homens abandonados a sua própria sorte. Rejeitados pelas divindades. Não adianta rezar para que vejam aquele menino maltrapilho deitar na calçada sobre uma folha de papelão. A vida dessa criança desprezada por Deus não tem qualquer importância. Por que? Por que somos tão insignificantes? Por que não há ninguém que olhe por nós? Por que estamos tão sozinhos? Não há quem nos segure a mão e acompanhe como o faria um pai ao seu filho que tenta ensaiar seus primeiros passos. Estamos confusos com tantas possibilidades e nos perdemos em vias que não levam a lugar algum. Por que temos este livre arbítrio que ao contrário de nos ajudar somente nos engana um tanto mais? Estamos livres e presos a nossa liberdade. Corpos nus para enfrentar a guerra de existir. Nascemos tão indefesos, suscetíveis a todo e qualquer perigo. Não há quem nos proteja. Estamos em perigo. Queria apenas poder dar a mão a alguém e acompanhar esta pessoa por seus caminhos tortuosos, porque isso foi sempre o sentido que imaginei de felicidade: poder auxiliar alguém a achar seu próprio destino. Mesmo que não tenha ainda encontrado o meu. Este estado das coisas é muito novo para mim. Verdadeiro, curioso, algo que não esperava. É atraente e pessoal. Estranho ao ponto de não conseguir expressá-lo em palavras, queria ter o dom da pintura porque o agora só pode ser retratado numa tela, com uma infinidade de tintas como as cores do crepúsculo em Brasília. Eu me sinto atraída por este inusitado estado das coisas, porque sou atraída pelo desconhecido. E são tantas vidas anônimas que me excedem. Fora do universo que sou, há outros universos, almas infinitas que serão esquecidas no decurso da história. Eu sei que existe e sempre existirá alguma coisa ausente. O verdadeiro sentido das coisas que nos escapa. Mas não penso nisso agora. Não quero me preocupar. Vou sendo, mesmo sem possuir. Existindo sem ter. Desprovida de qualquer coisa que era essencial, talvez esperança, ou amor. Não consigo amar, porque tenho medo de possuir outro coração e da responsabilidade de cativar e cultivar uma relação. Por isso vou me perdendo nesse anonimato, em que não há quem me veja. Nesse palácio que me cerceia como uma masmorra, porque me fecho em mim. Abro as páginas dos livros, e vejo, no mundo de papel, mais lógica que naquele em que pisamos todos os dias. Ainda bem que existe ainda muito tempo, para tentar fazer deste estranho mundo o que esperamos. E também agradeço por existirem outros sonhos, e essa necessidade cósmica que nos protege de nós mesmos. De repente não é preciso mais fingir nem fugir. Estamos sendo, na nossa existência desimportante, em que ninguém nos vê. Sonhos anônimos, como histórias não escritas, que se modificam no tempo. Depois vem um tal de Homero e imortaliza tudo isso. Vou me perdendo nessas noites escuras em que não se tem vontade de fazer nada, interiorizando o externo. Nesse mundo de pessoas solitárias em que nossas solidões se comunicam. E ficamos tão aterrorizados com isso e com o fato de entender nós mesmos, de ver o mais profundo do que somos… Sempre tentei ampliar a noite, para poder preencher-la de sonhos e divagações… Talvez assim possa ser muito mais que esse ínfimo átimo na existência do mundo. Poder sonhar é meu dom mais importante. Nesse cismar quase não ouço o celular soando desesperadamente, informando que é chegada a hora de abandonar a janela e voltar para o mundo em que não se sente.




A beleza de uma mulher não está nas roupas

que ela usa, na imagem que ela carrega ou na


maneira que ela penteia os cabelos.


A beleza de uma mulher tem que ser vista a


partir dos seus olhos porque essa é a porta


para o seu coração, o lugar onde o amor


reside.


A beleza de uma mulher está reflectida na sua


alma. Está no cuidado que ela amorosamente


tem ( pelos outros ) e na paixão que ela


demonstra em ter de ser mulher...


E a beleza de uma mulher com o passar dos


anos, APENAS CRESCE !!!


António Soares crditos ao blog http://oceanosemfim.blogs.sapo.pt/2005/01/
http://moncoeursauvage.wordpress.com/2011/04/21/866/

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