musica

22 de abr de 2011

todo tipo de cultura me agrada



Somos do tipo que se esconde atrás de montanhas para não ter que falar muito, não porque não gostamos de falar, mas porque é cansativo demais ser ouvido. Todo mineiro entende que "uais" não são simples "uais", que "sô" não é "senhor" e "trem" não tem rodas, mas quem além de nós sabe disso? Falar demais é arriscar ser desentendido; não arriscamos quando não temos certeza, e certeza, a gente bem sabe, é artigo raro que não está à venda nos mercadinhos de esquina. Em Minas, a certeza é a antítese do queijo. Nossa desconfiança nata nos torna reclusos, e é essa reclusão que nos transforma em mineiros.


Somos criados enclausurados entre serras, vendo sóis nascerem e luas brilharem. Hoje ouvimos o mugido do gado ser transformado no rugir de motores, e é assim que assistimos ao despertar de um tempo novo, avesso a todas as coisas que conhecemos, tempo esse em que 140 caracteres dizem mais que mil palavras. Nós estamos perdidos, decididamente perdidos. A mineiridade não sobreviverá a esse século, ele pertence às cidades cheias e aos campos vazios de gente. Ao pó, ao barulho, às luzes, ao concreto que deixa de ser adjetivo para se tornar substantivo e construir passarelas e ruas que ligam lugares a lugares, mas não as pessoas.

Não há mais conversinhas nas praças, mal conhecemos quem vende os remédios que precisamos tomar para nos sentirmos saudáveis, o cafezinho dos bares tem gosto de tudo, exceto de café, e a razão de bebê-lo se confunde com necessidade. Mineiro algum nunca passou à tardinha no Café Pérola, ou em qualquer outro, por necessidade, sempre foi por, sei lá, senso de religiosidade... ou de justiça. Entende-se, em Minas, que o bate-papo à beira da calçada e a atualização diária sobre a vida alheia é um dos meios de se fazer justiça na Terra. Não dar a um assunto, por menor que seja ele, a relevância que merece é um crime; a fofoca é a cura.

Mas, com o passar do tempo, ser mineiro se tornou muito mais não sê-lo: ninguém da nova geração reconhece a santidade do pão-de-queijo, nem leva as quitandas da avó para a escola. (Blasfêmia!) A mineiridade, já disse, está ruindo, e em seu lugar nasce uma segunda maneira de lidar com a vida, a que talvez possamos chamar de "sobriedade". Ser sóbrio é reconhecer-se incompleto, inconstante, inacabado. Talvez seja um modo mais acertado e menos pretencioso de viver, mas, cá entre nós, a única pretensão que sempre tivemos foi a de não falar demais. Eu mesmo me alonguei além da conta tentando explicar o que é que a gente é. Pois somos quem vive nas montanhas, quem tem vida interior e se torna gente enquanto tenta ser parte da nossa gente.

É melhor partir agora, sem dar mais detalhes do que faço ou vou fazer. Essas coisas a gente aprende com o tempo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

volte sempre

passaros

center>